Por Maria Fernanda Vomero
A morte pode ser vista como um mistério incompreensível. Ou
como um absurdo inaceitável. A morte pode até ser tratada como um tabu. Mas,
seja como for, aceitemos isso ou não, a morte é uma realidade inexorável. Por
mais que queiramos nos esconder dela, deixar de existir é tão natural quanto
existir. Na verdade, a morte é provavelmente a única coisa certa na sua
existência ou na minha: é certo que todos nós vamos morrer um dia.
Pode-se aceitar a inevitabilidade da morte e olhá-la de
frente. Ou pode-se negá-la, fugir dela, imaginar que não pensar na morte possa
fazer com que ela deixe de acontecer com você ou com a sua família. Mas todos
nós estamos programados para nascer, crescer e morrer – uma obviedade esquecida
por boa parte da sociedade ocidental contemporânea, que teima em ver a morte
como um evento inesperado e injusto. Sobretudo, costumamos vê-la como um evento
exclusivo, pessoal, que isola quem sofre uma perda de todo o resto do mundo.
Mas não há nada menos exclusivo do que morrer. Como está expresso na fábula
tibetana, a morte não é privilégio nem desgraça particular de ninguém. Ela
chega para todos, sem exceção.
Mas, afinal, se a morte é tão comum e corriqueira, por que
ela nos causa tanto medo? “O maior desejo do homem é a imortalidade”, diz a
psicóloga Ingrid Esslinger, da Universidade de São Paulo (USP), acostumada a
atender pessoas em situação de luto. “Por isso, muitas vezes a morte é
considerada uma inimiga.” E uma adversária, que poderia ser vencida pelos
avanços científico-tecnológicos do século 20, que aumentaram a eficiência dos
diagnósticos, dos medicamentos, das técnicas cirúrgicas etc. Soa como um
despropósito falar de morte a quem tem as descobertas da ciência a seu favor.
Afinal, se existem meios de prolongar a vida útil do ser humano, de manter-se
jovem, por que pensar na finitude?
É um paradoxo: a valorização da vida e a ilusão de eterna
beleza e jovialidade trazidas pela vida moderna acabam gerando, por meio do
apego a tudo isso, muito mais tristeza e sofrimento pelo fim inevitável da
existência do que felicidade pelo mais de vida que proporcionam. O ocidente
transformou a morte em tabu: ela costuma ser banida das conversas cotidianas.
Tudo aquilo que possa lembrá-la é escamoteado. Os doentes morrem no hospital,
longe dos olhos – e, não raro, do coração – de seus amigos e parentes. E os
rituais de luto são cada vez mais rápidos. O medo natural que todo ser humano
sente diante da própria finitude vira pânico. E mesmo a morte natural acaba
virando sinônimo de aniquilamento sumário. O que, no mais das vezes, não
corresponde à realidade por se tratar simplesmente de uma vida que chegou ao
fim.
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